Nossas dimensões exclusivamente humanas nos tornam insuperáveis diante de qualquer máquina

Alguns meses atrás eu estava assistindo a uma palestra em um grande evento internacional, para o qual eu tinha me inscrito com bastante antecedência, tal era a minha expectativa em relação aos temas que seriam apresentados.  Havia em torno de quatrocentas pessoas no auditório, de todas as partes do mundo, e ao meu lado estava uma brasileira bastante inquieta. A certa altura da preleção ela se vira para mim e diz: – “Esta palestra está o “ó”, não é mesmo?” Eu fiquei um pouco confuso em relação ao que ela queria dizer, então procurei dar uma resposta não verbal inespecífica. Simplesmente olhei para ela, pisquei e meneei levemente a cabeça.  Minha filha me disse um dia que, quando eu faço isto, é porque não quero conversa. Bem, parece que foi isto mesmo que a moça entendeu. Ela inclinou o corpo para a esquerda, num claro movimento de afastamento, ao mesmo tempo em que me escaneava de cima a baixo com os olhos.

Finda a palestra, fiquei pensando na minha atitude grosseira com aquela compatriota e no que ela tinha dito. Na área de café do evento, encontrei-me com o grupo de conhecidos que estavam hospedados no mesmo hotel que eu. Perguntei, então, às cinco pessoas que me rodeavam, o que eu deveria entender daquela fala, ou seja, qual o significado do “ó”.  A resposta foi rápida e unânime. Luciana, autoproclamada porta-voz do “júri”, sentenciou: “Ela quis dizer que a palestra estava péssima!” E depois, complementou, aparentemente por sua conta e risco, dizendo que o significado negativo era uma clara referência a um certo orifício humano muito presente em xingamentos. Ficamos todos sem palavras, nos entreolhamos e sorvemos o restante dos nossos respectivos cafés aos goles.

Eu continuava confuso. A palestra de fato tinha sido abaixo das expectativas, mas por alguma razão a qualificação com o “ó” não me parecia negativa. No caminho para o outro auditório onde teríamos a atividade daquela tarde, pesquisei na internet e só encontrei uma expressão mais completa, o “ó do borogodó”. Foi então que me lembrei de já ter ouvido este termo outras vezes e com um sentido mais positivo. Continuei rolando a tela do meu celular, pois havia ainda outros resultados da minha busca. Por exemplo, o dicionário informal[1] definia o “ó do borogodó” como “coisa difícil de resolver.” Parei por um momento, agora mais intrigado do que nunca, e decidi abrir mão do workshop que já estava começando para ficar ali mesmo, sentado no corredor, pensando (alguns chamam de devaneios) .

A palavra “borogodó” tem quatro letras “o”, sendo que a quarta e última se diferencia por ter o acento tônico. Considerando “borogodó” antropologicamente, teríamos as quatro dimensões humanas: a biológica, psicológica, social e espiritual. uma para cada letra “o”. A última letra, a mais especial, é aquela que verdadeiramente nos diferencia de todos os outros seres. Lembrei também da antroposofia[2] de Rudolf Steiner[3] onde a constituição corporal do ser humano passa pelos três reinos, mineral, vegetal e animal e mais o “Eu” (componente espiritual), sendo este último o que nos distingue dos animais. Interrompi meus devaneios e voltei ao google. Fiz uma nova busca para a palavra “borogodó” e no dicionário Priberan online apareceu o seguinte: Grande atração pessoal (ex.: seu “borogodó” faz com que todos gostem dela), carinho, afeto, mimo[4]. Na mesma pesquisa encontrei o site www.michaellourant.com.br que além de um artigo bem interessante trazia uma referência valiosíssima para o site de Rosa Pena[5], onde encontrei a crônica que finalmente me aliviou de todas as angústias da dúvida. Coloco abaixo dois trechos:

“Quando ele cruzou comigo no corredor do shopping e seus olhos castanhos bateram nos meus, percebi na hora que ele tinha algo mais. “It”, como dizia minha mãe, borogodó como eu antigamente dizia, agora não sei como se chama alguém que não tem o padrão atual de beleza, mas deixa pra trás qualquer Gianecchini. “Tem ‘He’, tem ‘She’ e tem ‘It’”. It… O que é “It”, irmão inglês do borogodó?… Lembrei-me da Cris, minha querida amiga portuguesa, que andou questionando o que seria borogodó. Esse termo é que nem saudade, sem tradução. Tem que sentir para entender. Quem tem it não precisa ser uma Brastemp pra gente jurar que a pessoa é maravilhosa. São os portadores de um brilho bonito no olhar, possuem sensibilidade para ouvir os outros, um sorriso que desencana qualquer grilo, um jeito de mexer as mãos como se quisessem acariciar nosso rosto e a gentileza de oferecer a cadeira da frente pro mais baixo.”

Fazia muito sentido que “borogodó” fosse um substantivo que se referia a algo muito especial e de difícil definição. Logo, a única letra “o” a ser acentuada, só poderia ser o adjetivo deste “borogodó”, aquele detalhe que faz de “borogodó” algo bacana e único. Ufa! Agora sim! Fechou! Eu podia voltar a frequentar as atividades do congresso sem me distrair com meus pensamentos inquiridores. Corri e entrei no auditório para ver a palestra de Kirk Schneider[6], que já havia começado. Ele falava sobre the spirituality of awe, título do seu recém lançado livro. A palavra awe me chamou a atenção, então resolvi dar uma olhada no dicionário online de Cambridge. A tradução para awe é “temor” e a definição em inglês era feeling of great respect, usually mixed with fear or surprise (sentimento de grande respeito, usualmente um misto de temor e surpresa). Por fim li que a pronúncia de awe é “ó”.  Respirei fundo e pensei, lá vamos nós de novo! 

Kirk iniciou sua apresentação compartilhando um dos momentos inesquecíveis da sua infância, quando seus pais o levavam para a praia nas férias de verão. Em suas palavras: “Uma destas viagens em particular foi muito marcante. Era a década de 1960 e eu estava na praia, olhando o mar, que me parecia especialmente lindo naquele dia. Meus pais sorrindo e divertindo-se na areia como crianças, a temperatura do sol parecia perfeita e quando eu liguei nosso rádio tocava a música time of the season dos Zombies. Senti meu coração cheio de alegria, um sentimento profundo de awe com aquele momento tão simples e ao mesmo tempo tão único e especial para mim.”

Para Kirk, da forma como a tecnologia faz parte de nossas vidas hoje em dia, estamos perdendo os momentos que podem nos proporcionar esta sensação de awe. Muitas das nossas experiências são mediadas, por exemplo, por um celular, seja para o registro de uma selfie ou para interagir com outras pessoas através das redes sociais e aplicativos de mensagens. Ele faz questão de frisar que não é contra a evolução tecnológica. Diz que “devemos acolher as transformações trazidas pela revolução digital sem ser absorvidos por elas, pois as vezes não sabemos onde começa a “ferramenta” e onde termina o ser humano que a utiliza. Em algum momento a inteligência artificial pode nos superar e criar autonomia para ir além do que a nosso cérebro é capaz[7]. O que vai nos permitir viver melhor no futuro não é a nossa transformação em máquinas também, mas retomarmos as dimensões mais exclusivas de nossa humanidade.”

Ao final da palestra me posicionei na saída do palco para falar com Kirk. Havia um grupo de mais de dez pessoas querendo um autógrafo ou simplesmente cumprimenta-lo pela apresentação. Ele atendeu a todos muito pacientemente. Quando chegou minha vez eu disse a ele que tinha gostado muito de tudo que ele tinha dito, mas que gostaria que ele me explicasse melhor o significado de awe. “Este sentimento de awe”, explicou, “é uma manifestação exclusivamente humana, expressão de nossa dimensão espiritual, que nos lembra que somos parte do milagre da vida que se manifesta todos os dias em vários fenômenos em todo o planeta, que nos faz sentir completamente humanos, que nos faz sentir vivos e cheios de energia. Seria a fascinação, a contemplação, o maravilhamento, arrebatamento, estar totalmente presente quando diante de um evento e sentir algo verdadeiramente especial.”

À medida que ele falava as conexões aconteciam na minha mente! Tudo fazia muito sentido. Creio que naquele momento experimentei a tal sensação. Não me contive e disse: I got it! Awe is the “ó” of our borogodó! Thanks a lot, Kirk[8]!


[1] www.dicionarioinformal.com.br

[2] Para saber mais sobre a antroposofia visite o site da Sociedade Brasileira de Antoposofia, www.sab.org.br

[3] Filósofo, educador, artista e esoterista, foi fundador da antroposofia, da pedagogia Waldorf, da agricultura biodinâmica, da medicina antroposófica e da euritimia, esta última criada com a colaboração de sua esposa, Marie Steiner-von Sivers. Nascido em Kraljevec, na fronteira austro-húngara, em 1861 — falecido em Dornach, em 1925.

[4] www.dicionario.priberan.com

[5] Rosangela Pena, escritora carioca que gosta de ser chamada de Rosa Pena, foi também professora e trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação na Secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, com projetos ligados a cinema, teatro, música e literatura. www.rosapena.com 

[6] Psicólogo americano e porta-voz da psicologia existencial-humanista contemporânea. Dr. Schneider é ex-editor do Journal of Humanistic Psychology, professor adjunto da Saybrook University e Teachers College, Columbia University e presidente do Existential-Humanistic Institute (EHI)

[7] Quem quiser saber um pouco mais sobre este tema pode ler minha publicação “Ser humano na revolução 4.0” no LinkedIn ou no nosso blog http://peoplefirst.com.br/blog-grid/

[8] Entendi! Awe é o “ó” do nosso borogodó! Muito obrigado, Kirk!