Nos últimos dois anos da minha prática profissional, não só como psicoterapeuta, mas também como coach, tenho notado cada vez mais o aflorar de reflexões existenciais nas falas de meus clientes. Normalmente as questões trazidas por eles não tem um conteúdo existencial explícito, até porque, quando me procuram, querem um resultado imediato, como eliminar alguma perturbação emocional específica ou dominar alguma competência para alcançar sua meta pessoal ou de carreira. Agora, quando chegamos nas sessões onde passamos a explorar as projeções de futuro, visão de mundo, sistema de crenças e valores, muitas das convicções em relação aos objetivos se revelam frágeis. Surgem neste momento as sequelas da conscientização da condição humana em tempos líquidos[1]. Solidão, peso da liberdade de escolha, falta de sentido ou propósito, enfrentamento da morte (real ou simbólica), etc.

Os desenvolvimentos tecnológicos que temos acompanhado nos últimos anos recentes tem fundamental contribuição no disparo destes efeitos e também para o surgimento de um sentimento ambíguo que envolve ao mesmo tempo euforia e desanimo. No livro “A quarta revolução industrial”, que obteve grande repercussão no seu lançamento, o fundador e presidente executivo do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab[2], fala sobre uma transformação sem precedentes que está em andamento, envolvendo diversas tecnologias disruptivas como robótica, inteligência artificial, realidade aumentada, big data, nanotecnologia, impressão 3D, biologia sintética e a Io T – internet of things (internet das coisas), onde cada vez mais dispositivos, equipamentos e objetos serão conectados uns aos outros.

Também chamada de indústria 4.0, as novas tendências têm provocado muito entusiasmo, especialmente entre empresários. O site www.hubi40.com.br menciona uma pesquisa do Barômetro Global de Inovação com mais de 4.000 pessoas em 23 países, onde “70% dos empresários têm expectativas positivas sobre as mudanças, acreditando que elas abrirão novas possibilidades de relacionamento, aproximando empresas e consumidores, aumentando a eficiência, proporcionando redução de custos e maior controle sobre os processos industriais, além da customização da produção”.

Ainda que o entusiasmo seja compreensível, há uma certa ingenuidade quanto aos eventuais danos colaterais destes avanços. Um estudo feito pelo McKinsey Global Institute[3] revela que, em função da automatização com inteligência artificial, teremos 800 milhões de desempregados em 2030 contra os 173 milhões que temos atualmente. Estamos falando de um impacto que ocorrerá dentro de apenas 10 anos e que diferentemente das “revoluções industriais” anteriores não atingirá apenas os trabalhadores de linhas de produção ou com baixa qualificação. Nos Estados Unidos, um dos maiores fabricantes de computadores criou um robô capaz de elaborar petições para quem quiser recorrer de uma multa. Há um outro que consegue ler mil tomografias por hora com acertos em 99% dos casos. Ou seja, as profissões advogado e médico, que podem ser consideradas como muito especializadas e intelectualizadas, estão em risco.   

Há uma outra peculiaridade. Estamos no meio de uma revolução que é parcialmente silenciosa e oculta. A verdade é que temos uma vaga ideia sobre as transformações que estão acontecendo. Não conseguimos ver precisamente seus movimentos. Enquanto você lê este texto, estima-se que 1,2 milhões de terabytes[4] armazenados apenas pelas quatro gigantes da tecnologia (Google, Amazon, Microsoft e Facebook) são processados com a ajuda poderosa de algoritmos e outros meios da inteligência artificial. Temos nossas ações online vigiadas e registradas como se estivéssemos constantemente sob os olhares do Grande Irmão, no estado totalitário descrito por Orwell em seu livro 1984[5]. O mais impressionante não é a invasão de privacidade, mas como somos depois levados a consumir não necessariamente o que precisamos ou acreditamos, sejam produtos, ideias ou candidatos a cargos públicos. (A este respeito recomendo o filme Brexit, protagonizado por Benedict Cumberbatch, lançado no início deste ano).

Claro que não podemos deixar de mencionar os ganhos com este extraordinário progresso, como por exemplo as cidades inteligentes, que estariam equipadas para identificar tremores de terra e furacões com muita antecedência além de operarem de forma sustentável. Mas eu gostaria deixar de lado os ganhos e perdas materiais para ir um pouco além, retomando o título do meu texto. Como é ser humano nestes tempos? Neste admirável mundo novo? As consequências mais concretas, como as que afetam o mercado de trabalho, são mais facilmente perceptíveis e são bastante relevantes, pois temos como mensurar parte dos estragos, mesmo mergulhados em incertezas. Por outro lado, há muitas outras implicações que não nos damos conta de imediato. Lemos as notícias nos jornais e mesmo sem compreender a extensão dos eventos, tentamos nos convencer de que as mudanças são parte da vida e que logo nos adaptaremos, encontraremos alternativas e estaremos no controle novamente. Segundo Ulrich Beck[6] “a mudança põe em foco um futuro característico da modernidade, a saber, a transformação permanente, enquanto os conceitos básicos e as certezas que os sustentam permanecem constantes”. O que estamos vivenciando nos tempos atuais não é uma simples mudança, mas uma metamorfose, que “desestabiliza essas certezas da sociedade moderna… provoca um choque fundamental, uma alteração que rompe as constantes antropológicas de nossa existência e de nossas compreensões anteriores do mundo. Metamorfose nesse sentido significa simplesmente que o que foi impensável ontem é real e possível hoje”.

No futuro a situação pode ficar ainda mais complexa e incerta, lembrando filmes de ficção científica como Matrix, Exterminador do Futuro e AI – Inteligência Artificial. Stephen Hawking[7] e Elon Musk[8], personalidades cuja credibilidade é inquestionável, demonstraram preocupação com os rumos destas tecnologias. Para Hawking, se continuarmos a desenvolver a IA para muito além do que temos hoje, isto poderia levar à singularidade tecnológica[9]. “Ela poderia acabar redesenhando a si mesma. Os humanos, incapazes de se desenvolver biologicamente na mesma velocidade, seriam substituídos.”

Viver no meio da metamorfose não é uma tarefa fácil, mas entendo que o enfrentamento é melhor do que tentar permanecer alienado. Também não acho que se trata de escolher cegamente os polos, aderindo a visões mais pessimistas ou otimistas. Deveríamos abrir mais fóruns de discussão e ser mais corajosos para falar abertamente de nossas angústias no intuito de compreender como tudo isto nos afeta. Infelizmente, muitos intelectuais, empreendedores, professores, líderes, coaches e até terapeutas não estão ajudando porque suas lentes não conseguem enxergar as mudanças de paradigma. Uma coisa é certa, as preocupações individualistas que visam apenas melhorar sua empregabilidade não serão parte de uma solução ampla e sustentável. O relatório da McKinsey trouxe também que haverá ainda mais discrepâncias na distribuição de renda. Dados do ano passado mostram que os bilionários aumentaram sua fortuna em 17% enquanto os 50% mais pobres viram seu patrimônio retroceder 11%. Embora menos pessoas vivam em situação de pobreza extrema, quase metade da população mundial — 3,4 bilhões de pessoas — ainda luta para satisfazer as necessidades básicas. Como você se sente diante destes dados? É preciso perguntar de novo. Que tipo de ser humano queremos ser? Espero que possamos ser do tipo que contradiz o filósofo alemão Theodor Ludwig Wiesengrund-Adorno[10], quando ele diz que “se os homens não fossem profundamente indiferentes ao que acontece com todos os demais, então Auschwitz não teria sido possível”.

Adorno tem uma visão ainda mais contundente sobre qualquer tipo de progresso, ele registrou seu alerta dizendo: “Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo particularmente disforme em relação a sua própria civilização … por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo … um impulso de destruição”.

Nem todos os pensadores são apocalípticos. As ciências que trabalham pelo desenvolvimento tecnológico estão apenas fazendo o que se espera delas. O sociólogo italiano Domenico De Masi, quando esteve fazendo conferências no Brasil em 2017, apresentou uma proposta visando as transformações sociais, econômicas e culturais previsíveis para 2030. Ele sugere um “pacto social capaz de substituir o paradigma competitivo por uma economia de doação (de tecnologias, oportunidades, visões e sentidos)”. De Masi acredita que precisamos de mais solidariedade e criatividade, e convoca as ciências humanas para também fazerem seu papel, pois por enquanto elas têm falhado naquilo que lhes compete na construção de modelos para indivíduos e sociedade.

A liderança intelectual da psicologia, filosofia, história, ciências políticas, ciências sociais, dentre outras, precisa ser acompanhada de ações concretas de governos e instituições não governamentais. Será necessário um esforço global multidisciplinar que crie condições para que as pessoas desenvolvam mais solidariedade, generosidade, empatia, responsabilidade, protagonismo, etc. Curiosamente, em um momento da história onde os interesses dos seres humanos podem estar sendo colocados em segundo plano, vamos ser chamados a mostrar o melhor de nossa humanidade.

#motivation; #carreiras; #health; #machinelearning; #innovation; #digitaltransformation; #leadership; #ai

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[1] Termo criado pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman em referência às mudanças constantes e rápidas que vivemos neste momento histórico. Nada é feito para durar, para ser “sólido”. Disso resultariam, entre outras questões, a dificuldade de estabelecer e manter vínculos, a obsessão pelo corpo ideal, o culto às celebridades, o endividamento geral, a paranoia com segurança e até a instabilidade dos relacionamentos amorosos. É um mundo de incertezas e de muito individualismo.

[2] A quarta revolução industrial, Klaus M. Schwab, Edipro, 1ª. Edição. 2016

[3] Mckinsey & Company – www.mckinsey.com

[4] Um terabyte é igual a 1.000 gigabytes.

[5] 1984, George Orwell, Companhia das Letras. 2009. Publicado originalmente em 1949.

[6] A metamorfose do mundo – Novos conceitos para uma nova realidade, Ulrich Beck. Zahar ed., 2018.

[7] Stephen William Hawking foi um físico teórico britânico reconhecido internacionalmente por sua contribuição à ciência, sendo um dos mais renomados cientistas do século. Faleceu em março de 2018.

[8] Elon Reeve Musk é um dos empreendedores mais incensados de nossos tempos, filantropo e visionário. Nasceu na África do Sul e está radicado nos EUA. Ele é o fundador, CEO e CTO da SpaceX; CEO da Tesla Motors; vice-presidente da OpenAI; fundador e CEO da Neuralink; e co-fundador e presidente da SolarCity.

[9] Um provável ponto na história, em que as máquinas, ou melhor, a inteligência artificial, vai extrapolar o nível de conhecimento e habilidades cognitivas dos seres humanos.

[10] Educação após Auschwitz, Theodor Adorno. Educação e Emancipação. 3ª Ed. São Paulo: Paz e Terra.