O tão sonhado legado. Dizem que basta escolher entre plantar uma árvore, ter filhos ou escrever um livro. Se quiser garantir, faça os três, mas para melhores resultados lembre-se de cultivar, educar e sentir, respectivamente. Sim, sentir o livro.

Há mais de três anos eu toquei neste tema superficialmente com um texto que intitulei “O livro de vida”. À época minha intenção era colocar em dúvida o sistema de crenças das pessoas, lembrando-as que estes construtos tem um poder de impulsionamento de um lado e uma força limitadora de outro. Recordei então da frase de Nietzsche[1], nos convocando a sempre contestar nossas verdades sob o risco de transformar nossas vidas em uma obra de ficção: “As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras”.

O texto atual tem motivações diferentes. A notícia do falecimento de um amigo na manhã de hoje[2] me conduziu automaticamente a capítulos passados da minha vida, nos quais ele participou ativamente. Foram momentos cheios de significado e repletos de ensinamentos, que só me vieram à mente porque continham sentimentos. Que maravilha poder constatar que, como dizia Sartre[3], “Não é em algum retiro que nós nos descobrimos: é na estrada, na cidade, em meio da multidão, como coisa entre coisas, como homem entre homens.” Claro, pois o “ser” manifesta-se como ser-com-os-outros e ser-no-mundo, dentre outras formas de apresentação do Dasein segundo Heidegger[4]. Nossa existência não está encapsulada no corpo físico, mas constituindo-se junto com outras existências através dos relacionamentos que cultivamos. E porque é tão importante lembrar disto nos dias de hoje? Porque as relações estão sendo sobrepujadas por interações cada vez mais superficiais. Parece que tudo se resume a networking[5] e a vidas virtuais tão autênticas como notas de dois dólares.

Outro aspecto importante da minha reflexão de hoje, que está inserido no contexto dos parágrafos acima, é a morte. Entre as mensagens trocadas entre amigos sobre o triste acontecido, eu li uma que dizia: “Todos os dias somos lembrados de nossa finitude…ainda assim, andamos pelo mundo distraídos com nossas mesquinharias…sem viver o que podemos…sem amar ao máximo”

Esta consciência de nossa inexorável finitude pode se apresentar de outras formas. Muitos vivenciam uma verdadeira sensação de aniquilamento quando passam pelo rompimento de um relacionamento amoroso ou são demitidos inesperadamente de seus empregos. E o que significa isto? Bem, eu penso que a morte faz mais parte da vida do que o nascimento. É uma das inevitáveis certezas que temos e nosso entendimento sobre ela é que fará a diferença nas nossas escolhas. Portanto, sempre cresceremos muito quando confrontados com a morte, real ou simbólica. Na verdade, o índio D. Juan Matus diz a Castañeda[6] que a morte é nossa melhor conselheira e está o tempo todo a um braço de distância de nós, do lado esquerdo, como a nos lembrar de esgotar tudo o que a vida pode dar.

Recorro uma vez mais ao conceito do “eterno retorno” de Nietzsche, expresso na fictícia conversa que ele manteve com Josef Breuer[8].

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Imagine que esta vida, assim como a vive agora e como a viveu, terá que vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em sua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e sequência…A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e você com ela, poeirinha da poeira. Você ama ou odeia esta ideia?

Como eu disse no meu texto de três anos atrás, as primeiras páginas do primeiro capítulo do livro de nossas vidas não são escritas por nós. Somos “lançados” no mundo sem escolha. Nós também não sabemos como e quando as últimas linhas do último capítulo serão escritas[7], mas sabemos que este desfecho já está se configurando hoje! À medida que eu escrevo (leia-se “vivo”) a vasta maioria dos capítulos que estão totalmente sob minha responsabilidade de escolha, estou subsidiando o conteúdo do que será lido no meu epílogo.

Amigo Hélio T., descanse em paz!

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[1] Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844 – 1900) foi um filósofo, escritor, poeta e filólogo alemão, um dos mais importantes do século XIX. Em “Humano, demasiado humano”, publicado originalmente em 1878.

[2] 22 de outubro de 2019.

[3] Jean-Paul Charles Aymard Sartre (1905 – 1980) foi um filósofo, escritor e crítico francês, conhecido como um dos maiores expoentes do existencialismo.

[4] Martin Heidegger (1889 – 1976) foi um filósofo, escritor, professor universitário e reitor alemão. Precursor da fenomenologia junto com Edmund Husserl, é amplamente reconhecido como um dos filósofos mais originais e importantes do século XX, autor de um dos mais influentes tratados de filosofia de todos os tempos, “Ser e Tempo” de 1927.

[5] O networking é um procedimento muito válido e necessário para troca de conhecimento e divulgação de serviços. Deve ser praticado e visto como tal. Não deve nunca ser confundido com ou substituir relacionamentos mais significativos.

[6] “O caminho do Nagual”, de Roberto Carriconde, 2018.

[7] Aos que pensaram no suicídio, quero lembrar que mesmo decidindo a forma de acabar com a própria vida, o suicida nunca saberá com certeza se será bem-sucedido e como será o desfecho exatamente.

[8] “Quando Nietzsche chorou”, 1992, Yalom, Irvin D.