Partirei do princípio que você, leitor, conhece a fábula[1] sobre o escorpião que convence um hesitante sapo a atravessá-lo para a outra margem de um rio. O temor do sapo da fábula é ser picado pelo peçonhento companheiro de viagem, mas o escorpião argumenta que não faria sentido ferroar seu carregador, pois se o fizesse, ambos se afogariam. A dupla começa então a fazer a travessia e, segundo esta narrativa ficcional, o escorpião acaba cravando seu ferrão no sapo e ambos vão parar nas profundezas do rio.

As fábulas têm um indiscutível poder de influência na comunicação humana. Parece mais fácil acessar em nossa memória as historinhas de animais que vivenciam dilemas humanos, por mais bizarras que possam parecer, do que elaborar argumentos amplos com base em ideias e conceitos conhecidos. Acho muito válido o uso de parábolas, fábulas, analogias, metáforas etc., mas quando vejo a tendência maniqueísta das interpretações da chamada “moral da história”, fico pensando sobre qual teria sido realmente a intenção autor.

No exemplo em questão, a maior parte das opiniões tende a ficar circunscrita a uma visão do escorpião como traidor e do sapo como vítima ingênua. Li conclusões e comentários do tipo: “não se pode confiar em ninguém”, ” escolha bem seus amigos”, “eu já tive um escorpião na minha vida”, “pau que nasce torto morre torto”, “aqui se faz aqui se paga” e por aí vai. Há ainda os que apelam para a teoria da conspiração, dizendo que o sapo comeu o escorpião e depois espalhou uma versão diferente da história.

Pois bem, eu gostaria de propor uma reflexão diferente, mantendo como protagonistas estas mesmas duas criaturas que estão aqui representando questões humanas nada simplistas. Eu, particularmente, acho que se o sapo assumiu riscos ao decidir levar o escorpião, ele deveria estar disposto a conviver com as consequências da sua decisão. Ele teve tempo para analisar os prós e contras, optando livremente por dar a carona ao final. Apesar da morte ter lhe sido imposta pela ação do outro, ele vivenciou a experiência por livre e espontânea vontade. Já o escorpião, por sua vez, revela um processo semelhante, porém mais complexo. Quando valida seus atos através da fala “é minha natureza, não posso fugir dela”, ele me parece querer isentar-se da responsabilidade de ter feito sua escolha. Justifica a sua ação atribuindo poder a algo que é parte dele, mas sobre o qual alega não ter controle. A verdade é que no meio do trajeto ele se sente impulsionado a fazer o que quer e não o que deve, mas como não está preparado para viver com o peso das consequências, atribui a culpa a uma força superior.

Eis então que surge uma limitação nesta nossa analogia. Animais e coisas já nascem com uma essência, portanto o escorpião até poderia alegar a influência da sua natureza[2]. O ser humano não. Segundo Sartre[3] a existência do ser humano precede a sua essência, ou seja, vamos construindo quem somos à medida que existimos. Dizer que temos uma essência seria o mesmo que dizer que todos os homens e mulheres agirão de forma idêntica quando diante das mesmas situações. Sabemos que não é assim, mas não quero me aprofundar neste aspecto.

É em outra frase de Sartre que ao meu ver está o verdadeiro dilema desta fábula. Quando ele diz que o “homem está condenado a ser livre” enfatiza o peso que esta liberdade traz, porque sabe que cada escolha envolve consequências previstas e imprevistas. Mesmo em situações extremas, quando submetidos a uma autoridade ou privação, a liberdade de escolher será sempre algo que não posso declinar. Paradoxalmente, isto quer dizer que sou livre para escolher tudo, menos de deixar de ser livre. O verdadeiro desafio está em ter que conviver com o resultado do que escolhi e do que deixei para trás. Viktor Frankl propôs a construção de uma estátua da Responsabilidade na costa oeste dos Estados Unidos, para complementar a estátua da Liberdade na costa leste[4] para que nos lembrássemos que uma coisa não vem sem a outra.

Boa parte das pessoas que me procuram para melhorar a competência em Tomar Decisões[5] fica bem animada no início do processo quando os exercícios tratam sobre decidir qual a melhor rota para se ir ao trabalho, a venda de um produto ou a demissão de um funcionário cujo nome não se sabe. Agora, quando aprofundamos um pouco, e chega o momento de encarrar situações mais intricadas, nas quais uma escolha conflita com os próprios valores ou desvela características até então desconhecidas sobre si mesmos, muitos destes clientes se sentem paralisados como se estivessem diante de uma barreira intransponível. Aprender a lidar com as incertezas e assumir inteiramente a responsabilidade por todas as suas ações é a parte mais enriquecedora do processo porque não desvia o olhar dos conflitos internos.

Eu costumo dizer que o sucesso de uma tomada de decisão está muito mais na forma com a qual se lida com as consequências do que na análise de cenários que se faz a priori. O escorpião poderia gastar o tempo que fosse analisando as alternativas e ainda assim escolherpicar o sapo. O resultado fatal proveniente da sua decisão não é o que define o suposto fracasso. É a atitude de não se reconhecer, de não se assumir diante da opção feita que o coloca neste papel patético. Fico tentadoa imaginar como vivia o escorpião antes deste evento. Penso que se ele tivesse tido atitudes diferentes ao longo da sua vida, investindo em autoconhecimento, assumindo a responsabilidade pelos seus atos e extraindo aprendizado dos resultados, talvez o final da história com o sapo fosse outro. Quem sabe…

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[1] Caso algum leitor conheça o autor da fábula, peço que gentilmente me informe. Gostaria de atribuir os devidos créditos, mas tudo que pude apurar é que a mais antiga aparição do texto foi em 1944 no livro “The Hunter of the Pamirs” de Georgi Tushkan. Em 1955 a fábula ganha fama com o solilóquio de Orson Welles no filme “Mr. Arkadin”.

[2] Os biólogos dizem que os escorpiões atacam apenas quando se sentem ameaçados, portanto nem mesmo o nosso querido invertebrado artrópode poderia usar este argumento.  

[3] Jean-Paul Sartre (1905-1980) foi um filósofo, dramaturgo e escritor francês, um dos principais representantes do existencialismo.

[4] “Em busca de sentido”- Editora Vozes edição 42ª de 2017 – autoria de Viktor E. Frankl (1905-1997), psiquiatra austríaco criador da Logoterapia.

[5] O processo de coaching é o mais utilizado para desenvolvimento de competências. Na metodologia da People First DPO o protocolo cognitivo-comportamental é enriquecido com reflexões de base fenomenológico-existencial, antroposóficas e analíticas.